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18.08.2009

Quadrilha clona contêineres em Santos

Um esquema criminoso de substituição de contêineres com mercadorias por contêineres falsos foi descoberto há três meses no porto de Santos (a 85 km de São Paulo), o maior do Brasil e da América Latina.

A cargo da Depom (Delegacia Especial de Polícia Marítima) da PF (Polícia Federal) em Santos, a investigação é reservada. Nada foi divulgado publicamente sobre o caso, que corre sob segredo de Justiça.


A estratégia da quadrilha é considerada engenhosa pelos investigadores. Consiste na troca do contêiner repleto de produtos por outro idêntico -mesmos tamanho, cor, numeração e até peso. Só que cheio de material sem valor.

As investigações começaram em maio, quando representantes do Terminal de Contêineres Santos Brasil, instalado no Guarujá (cidade vizinha a Santos), procuraram a Depom e a Receita Federal para relatar a suspeita de que haveria no pátio pelo menos um contêiner com indícios de numeração adulterada.

Os policiais federais e os especialistas da Alfândega constataram no local a existência de três contêineres -chamados de "gigantes", os maiores existentes, com área total de 95 metros quadrados- próximos a outros três com características idênticas.

Os contêineres foram abertos. Em três deles, havia aparelhos de PlayStation (videogame) que abasteceriam o mercado brasileiro. Eles estavam em área supervisionada pela Receita, que os apreendera por considerar a carga suspeita de contrabando.

Nos outros três, foram encontrados pedras, areia, material variado, mas sem valor algum. O peso do conteúdo dos seis contêineres era similar: oito toneladas cada um.

Os contêineres com entrada formal no Santos Brasil chegaram em datas próximas, trazidos do México, dos EUA e da Colômbia. Dos falsos, pouco se sabe até agora.

Para a polícia, a quadrilha conseguiu entrar no terminal com os três contêineres falsos utilizando-se de documentação fraudulenta, com o objetivo de trocá-los pelos que haviam sido apreendidos.

Dentro do terminal, integrantes do bando teriam adulterado as numerações dos falsos contêineres, tornando-as iguais às daqueles trazidos do exterior. O terminal não recebe contêineres com a mesma numeração. Os criminosos planejavam retirar os contêineres com videogames, deixando os com entulho no lugar.

O esquema indica para os policiais que a quadrilha teve acesso a informações internas sobre peso, carga e características externas dos contêineres, de modo a montar com perfeição as estruturas que os substituiriam (veja quadro ao lado).

Vinculado ao Grupo Opportunity, do empresário e banqueiro Daniel Dantas, o Terminal de Contêineres Santos Brasil -o maior da América Latina, com área total de 596 mil metros quadrados e movimentação mensal de 12 mil contêineres- confirmou à Folha que avisou a Receita e a PF sobre as suspeitas.

De acordo com a empresa, a descoberta da tentativa de fraude foi visual. Seguranças encarregados da vigilância do pátio estranharam a numeração de um dos contêineres falsos e alertaram o comando da empresa sobre a possibilidade de uma falsificação.

O terminal informou que monitora toda a área de contêineres com 150 câmeras, cujas gravações são armazenadas por seis meses. Para entrar no terminal, ainda segundo a empresa responsável, além da apresentação de documento oficial, a pessoa é fotografada e submetida a exame de coleta de impressões digitais.

Esse material está à disposição da PF, que aguarda a chegada do laudo pericial para iniciar os interrogatórios. Pelo menos 15 pessoas deverão ser ouvidas pelo delegado Fábio Amorim, presidente do inquérito.